Desenvolvimento da resiliência nas organizações

Autores: Mônica Martin, Soraya Oliveira e João Marcos Varella

INTRODUÇÃO

Quando se observa o mundo com um olhar mais apurado e procurando entender os movimentos quer sejam sociais, políticos ou econômicas o primeiro sentimento é de total inquietude e incerteza, pois pouco se consegue compreender sem análises mais profundas. Corre-se o risco de se obter conclusões rasas, que geram polarizações que pouco contribuem para a compreensão do contexto atual, o que pode impedir uma tomada de decisão equilibrada dentro desse contexto. Isso se reflete de modo profundo nas organizações: fusões, aquisições, novas estruturas, terceirizações, novas formas de trabalho avançam cada dia mais, com mudanças rápidas de cenários e de atores nesse mundo globalizado.

Um conceito que pode apoiar o entendimento desse cenário de tantas transformações é denominado VUCA, uma sigla em inglês (volatility, uncertainty, complexity and ambiguity) utilizada para descrever a volatilidade, a incerteza, a complexidade e a ambiguidade do mundo atual. Oriunda do vocabulário militar americano, vem sendo utilizada para ampliar o entendimento do cenário atual e seus impactos na sociedade como um todo. O conceito VUCA expressa a complexidade de nossa sociedade, a interdependência fruto da globalização e seus impactos em todas as áreas da vida. Entendendo mais o conceito e seus reflexos:

  • Volatilidade: significa a natureza, a velocidade, o volume e a magnitude das mudanças que não se encontram num padrão previsível e seu o impacto na sociedade.
  • Incerteza: entendida como falta de previsibilidade, a perspectiva da surpresa e a dificuldade de desenhar cenários futuros a partir de acontecimentos passados.
  • Complexidade: refere-se à interdependência e conectividade entre os fenômenos, e a dificuldade de entender o resultado das interações, porque raramente são lineares.
  • Ambiguidade: significa a imprecisão da realidade, ao potencial erro de leitura dos fatos e a confusão entre causa e efeito e falta de clareza.

Os reflexos se fazem sentir no dia-a-dia das pessoas por meio de alterações por vezes profundas e inesperadas como a perda do emprego, uma transferência repentina para um novo cargo no exterior ou a perda do bônus anual em virtude do fechamento de um negócio abaixo do esperado em razão da volatilidade do câmbio. Os impactos na realidade das pessoas geram desequilíbrios financeiros, profissionais, familiares e mais que tudo, emocionais. Uma resposta é dada sempre a qualquer um desses impactos, mas muitas vezes são respostas fruto de profundo estresse, gerando comportamentos de inadaptação, agressividade, passividade e consequentes doenças físicas e emocionais.

No contexto organizacional, tudo isso se reflete em muitas situações que consultores, profissionais de Recursos Humanos e gestores enfrentam ao buscar a melhoria do desempenho de pessoas e equipes, tentam diversas estratégias, porém a situação não se altera e não há um ganho expressivo na superação desses obstáculos.

A volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade que impactam pessoas, equipes e organizações: a resposta a esses desafios está no desenvolvimento da Resiliência. A jornada começa por meio do desenvolvimento de comportamentos de equilíbrio ancorados na resiliência. A capacidade de enfrentar os desafios, obter novos aprendizados e sair fortalecido da situação caracteriza o comportamento resiliente. Isso envolve a gestão, as equipes e a área de Recursos Humanos de modo que possa se construir um ambiente corporativo resiliente.

METODOLOGIA

Segundo a Abordagem Resiliente (Barbosa, 2010), os comportamentos resilientes são treináveis. Está no indivíduo a capacidade de desenvolvimento de estratégias para a superação de um determinado desafio. A única barreira que se instala entre o indivíduo e a superação do desafio que está enfrentando, é a sua capacidade de perceber a realidade.

Segundo Aaron Beck: “há mais na superfície do que nosso olhar alcança “. O que esta frase quer nos dizer? Quer dizer que temos mais dados, fatos e informações disponíveis e a nosso favor, do que a nossa capacidade de perceber e tirar o melhor proveito deles. Que o nosso olhar é de certa forma míope, talvez destreinado para olhar e lançar mão de todos os recursos que temos a nossa volta. Desta forma, o caminho para a alta performance está no desenvolvimento da nossa cognição, da nossa capacidade de aprender a trabalhar e analisar a nossa percepção sobre nossa realidade e experiências, lançando mão de estratégias e todos os recursos disponíveis, sejam eles externos ou internos, para a superação das adversidades. O indivíduo capaz de fazer isso é um indivíduo exercitado em sua Resiliência.

A metodologia para o desenvolvimento da resiliência contempla os treinos que exercitarão um grupo/equipe para ampliação da capacidade de interpretação da realidade diante do estresse. Esses treinos são atenuados ou intensificados sempre a partir do entendimento da condição atual de resiliência do grupo e, principalmente, devem ser alinhados às diretrizes de competências estabelecidas e esperadas pela organização em que atuam.

A condição atual de resiliência de um grupo pode ser identificada a partir da análise e interpretação da visão consolidada do mapeamento individual de seus integrantes. Este mapeamento dever ser efetuado utilizando-se uma ferramenta desenvolvida especificamente para identificar os Graus de Resiliência, relatando seus desvios e fortalezas no comportamento resiliente. A partir da identificação dos desvios e fortalezas, o comportamento resiliente do grupo é caracterizado, permitindo o desenvolvimento de treinos para a consolidação do equilíbrio.

Estes treinos devem ser organizados sobre o perfil do grupo, mantendo a atenção ao indivíduo. Por exemplo, deve ser assegurado que a diversidade das condições de resiliência seja utilizada a favor do grupo: Pessoas fortes dirigidas para interagir com pessoas mais fragilizadas em resiliência viabiliza que estas descubram por meio do outro, recursos para avançar na questão endereçada pelo treino.

Os treinos promovem o desenvolvimento da resiliência do profissional, entretanto, como para qualquer treino ser levado a termo, a motivação é essencial para sua realização. Esta motivação será alcançada pelo indivíduo e pelo grupo a partir do despertar da sua consciência sobre sua condição de resiliência e sobre as expectativas organizacionais depositadas sobre eles.  Portanto, antes dos treinos serem iniciados é fundamental assegurar uma devolutiva individual e a exposição de uma visão consolidada ao grupo sobre os comportamentos resilientes atuais.

Para promover os treinos em resiliência também consideramos necessário o delineamento de um contexto para o estabelecimento de um compromisso significativo e realmente impactante a ser alcançado pelo grupo. Este compromisso precisa estar atrelado aos desafios que ele enfrenta em seu dia-a-dia e, principalmente, aos objetivos estratégicos da organização em que atua.  E, finalmente, para a consolidação da aprendizagem promovida durante os treinos é essencial assegurar um monitoramento no curto, no médio e longo prazo, por meio de métricas consistentes e estabelecidas por acordo do próprio grupo que permitam o reconhecimento das conquistas alcançadas.

APLICAÇÃO DA METODOLOGIA

Esta metodologia permite a aplicação das ferramentas da resiliência para melhorar o desempenho de grupos em face de diferentes necessidades. Quando muda o foco de desenvolvimento do grupo, muda totalmente o conteúdo do treino em resiliência a ser aplicado, mantida a metodologia. Vamos considerar alguns objetivos das organizações e examinar como ocorre a adaptação do conteúdo a cada um deles.

  • PRODUTIVIDADE

Uma condição importante para os padrões de produtividade é a capacidade da equipe de acreditar que é capaz de enfrentar seus desafios e realizar seus objetivos. A força de vontade, a autodeterminação e a convicção de ser eficaz nas ações propostas é resultado do equilíbrio de sua autoconfiança. Outro conteúdo a ser trabalhado é a clara visão da realidade, das circunstâncias em que o grupo está inserido e sua capacidade de adaptar-se às diferentes demandas.  Entender as relações de causa e efeito atento às evidências do ambiente, fazendo um exame equilibrado dos fatos.  O equilíbrio no desenvolvimento dessas habilidades favorece a perfeita visão da realidade e desvios desse comportamento podem representar riscos à produtividade o que significa perdas e custos.

  • LIDERANÇA

O foco do conteúdo de resiliência está no desenvolvimento da capacidade de criar vínculos e uma rede de apoio de forma a obter a adesão e colaboração da equipe aos seus projetos. E no comportamento apropriado do líder para manter um clima de equilíbrio e compreensão em momentos de tensão e conflito. Desta forma, o líder amplia sua compreensão sobre as necessidades das pessoas e acredita no potencial de sua equipe.

  • NEGOCIAÇÃO E CONFLITOS

Para desenvolver a competência para negociações e superação de conflitos será necessário concentrar o conteúdo em resiliência na capacidade de interpretar corretamente o pensamento do outro, de apreender os objetivos da outra pessoa. Habilidade para ouvir e cultivar a comunicação. O conteúdo será complementado pela habilidade para criar um ambiente emocionalmente agradável e para propor alternativas e novos caminhos. Destaque para a flexibilidade para adaptar-se a diferentes contextos, que ora exigem firmeza e ora necessitam de diplomacia.

  • DESAFIOS E CUMPRIMENTO DE METAS

O conteúdo em resiliência para esta situação está em desenvolver a convicção de que as coisas podem mudam para melhor, isto é, desenvolver a flexibilidade para mudanças, com criatividade e humor. Como também, promover a convicção que possui recursos para resolver problemas, força de vontade e entusiasmo para superar os obstáculos rumo ao cumprimento de suas metas.

  • PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO

O apoio das ferramentas em resiliência para elaboração do planejamento estratégico tem seu foco no desenvolvimento da visão de realidade, na justa relação de causa e efeito, na identificação dos riscos e os perigos lendo adequadamente os sinais que o ambiente emite, atento às suas evidências. Apresentar uma ousadia saudável nas decisões e equilíbrio no exame dos fatos e ainda, ser inovador em suas propostas. Complementa o conteúdo, a visualização de novos ideais e horizontes com imaginação e vontade de realizar.

  • SAÚDE

No dia-a-dia as pessoas estão sujeitas a pressões, estresse e consequentes manifestações psicossomáticas. O mais grave é o não reconhecimento adequado dessas manifestações sobre o corpo e que poderiam ser identificadas precocemente. O conteúdo em resiliência está no desenvolvimento da percepção sobre as alterações no próprio corpo, identificar os sinais de estresse e efetivamente ter uma atitude de cuidar de si mesmo.

  • ASSÉDIO

Esta é uma ação preventiva onde o foco está na identificação de comportamentos radicais por parte dos líderes no relacionamento com liderados, sobretudo por visão inadequada da realidade e um desvio na percepção da relação de causa e efeito. Nestas circunstâncias, pode haver a emissão de comportamentos inadequados, criando um ambiente emocionalmente desagradável gerador de conflito e tensão.  O conteúdo em resiliência está direcionado para o desenvolvimento de comportamentos adequados nos relacionamentos com o objetivo de evitar conflitos e desgastes, com equilíbrio nas ações, sem ultrapassar os limites aceitáveis no exercício de sua liderança.

CONCLUSÃO

Ainda há muito que se explorar no mundo corporativo quanto ao desenvolvimento da resiliência, principalmente, porque o alto nível de estresse passou a ser uma condição característica dos desafios que as corporações se impõem para assegurar sua competitividade. O momento de crise em que vivemos também acentua a disputa pelos recursos. Diante das necessidades de especialização exigidas pelas novas tecnologias, também é aumentada a necessidade de formação de equipes multidisciplinares que devem cooperar no mesmo ambiente em que precisam competir por recursos. O desenvolvimento da resiliência fortalecerá as empresas para o enfrentamento deste cenário a fim de que as pessoas desenvolvam a capacidade de criar estratégias de superação das adversidades para atuação de forma cooperativa. Somente neste contexto as empresas estarão fortalecidas e preparadas para a perenidade. Os recursos da resiliência podem ser aplicados a muitas situações e colaborar para a eficácia das organizações. Organizações resilientes são mais produtivas em ambiente mais agradável e saudável.

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